Especialista do RJ aponta que eficiência do SUS começa dentro do hospital e na logística invisível

Enquanto o debate público sobre saúde digital costuma focar em softwares e aplicativos, especialistas alertam que o verdadeiro ganho de eficiência do Sistema Único de Saúde (SUS) passa por um eixo menos visível: a logística hospitalar, o fluxo de suprimentos, o treinamento das equipes e o desenho inteligente de processos.

Brasil l Segundo Luã Santiago, especialista em gestão de sistemas hospitalares com atuação em rede pública no Brasil, a tecnologia só gera impacto real quando está integrada ao dia a dia da operação hospitalar. “A informatização isolada não resolve. O hospital eficiente é aquele que organiza o fluxo, antecipa gargalos e transforma dados em decisões práticas”, afirma.

Luã relata sua experiência direta em ambientes hospitalares do SUS, destacando a importância de mapear falhas operacionais e apoiar a adoção de ferramentas administrativas. Um dos exemplos citados é sua participação em processos de implementação e treinamento do Sistema Eletrônico de Informações (SEI), com foco na adesão das equipes e na clareza dos fluxos internos.

“Em hospital, um atraso pequeno vira efeito dominó: falta material, adia procedimento, aumenta tempo de permanência do paciente, pressiona a equipe e estoura custos. Sistema hospitalar eficiente é aquele que antecipa o problema com dados confiáveis e rotina bem desenhada”, explica Luã.

O que os dados revelam sobre estrutura e desigualdade operacional

Dados oficiais do Censo 2024 das Unidades Básicas de Saúde (UBS) mostram avanços importantes, mas também evidenciam desigualdades no uso efetivo da tecnologia. O levantamento aponta que 77,8% das UBS possuem computadores conectados à internet em todos os consultórios, enquanto apenas 39% oferecem serviços de telessaúde, um indicativo de que conectividade não significa, necessariamente, integração funcional.

No campo do financiamento, o mesmo censo registra que o orçamento federal da atenção primária à saúde cresceu de R$ 35,3 bilhões em 2022 para R$ 54,1 bilhões em 2024, demonstrando esforço fiscal para ampliar a capacidade do SUS e sustentar iniciativas de saúde digital. Especialistas, no entanto, alertam que o desafio agora é transformar investimento em resultado concreto na ponta.

Para Luã Santiago, o próximo salto de eficiência não está apenas na compra de novas soluções tecnológicas. “O erro mais comum é investir em sistemas sem conectar a operação. Se o dado não atravessa a rede, UBS, regulação, ambulatório, hospital e alta, a gente cria ilhas digitais. E ilha digital também gera fila, porque não conversa com o resto do sistema”, analisa.

No centro dessa agenda está a Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS), apresentada pelo Ministério da Saúde como o eixo de interoperabilidade do SUS, e o Programa SUS Digital, que busca ampliar estrutura, conectividade e uso estratégico da informação em todo o país.

Especialistas avaliam que o Brasil entrou na fase mais complexa da transformação digital da saúde: a execução em escala. Isso envolve integrar sistemas diferentes, padronizar dados, capacitar profissionais e usar indicadores para gestão hospitalar e tomada de decisão.

“Eficiência no SUS não é cortar, é organizar”, resume Luã. “E organizar, hoje, passa por sistema hospitalar bem governado: indicador confiável, processo treinado e interoperabilidade real. Sem isso, a tecnologia vira promessa; com isso, ela vira resultado.”